De novo a lição do Presépio
Estamos em plena quadra de Natal e
mais uma vez a mensagem do Presépio de Belém toca o nosso coração, modifica as
relações e os comportamentos, e traz-nos novas razões de esperança.
Na simplicidade e pobreza daquela
criança deitada nas palhinhas do Presépio, fora da cidade misturada com os mais
humildes e esquecidos, que os pastores representam, contemplamos cada uma e
todas as crianças do mundo, que são, por si mesmas, a expressão mais acabada do
sorriso de Deus para toda a humanidade. E entre elas queremos, neste Natal,
distinguir, com atenção privilegiada, as que não têm pai nem mãe, como os teve
o Menino Jesus, para cuidar delas, para as ajudar a crescer na vida e a
realizarem o sonho legítimo de construírem o seu futuro com dignidade. Queremos
trabalhar para oferecer a essas crianças as condições que lhes faltam para
viverem felizes. Saudamos, por isso, todas as instituições que se propõem
acolhê-las e ajudá-las, com uma recordação especial para o "Anascer"
que, nesta nossa cidade, ao cuidado da Cantas Diocesana da Guarda, acolhe mães
com dificuldade e seus filhos, quer os nascidos quer os que estão prestes a
nascer. Por sua vez a iniciativa "Dez milhões de estrelas" que
estamos a desenvolver e apoiar, com a compra de uma vela para ajudar as
iniciativas da Cáritas nacional e diocesana, é também um sinal do nosso sim a
esta e outras iniciativas do género.
Sabendo que o Natal é motivação
particular para ir ao encontro de todos os que precisam, também estamos
empenhados em que os serviços da Caritas Diocesana se estendam às periferias,
incluindo com a sua competência técnica, para descobrir e identificar bem as
situações de carência existentes, mesmo as não visíveis a olho nu. É por isso
que, quer através do programa "Próximo mais próximo" que está a ser
desenvolvido para ir ao encontro dos párocos e das paróquias, quer através da
marcação de tempos e lugares determinados de atendimento, por proposta dos arciprestes,
sempre a contar com as instituições que já actuam no terreno, queremos
contribuir para dar resposta às situações variadas de especial dificuldade que
estão a atingir crescente número de pessoas e famílias.
Também sabemos que, apesar das muitas
conquistas e progressos das sociedades actuais, a solidão e o abandono
continuam a fazer sofrer grande número de pessoas, nos nossos ambientes. Há
muito a fazer no combate a estas formas de marginalidade que, em situações mais
extremas, podem levar os implicados a pedir para lhes anteciparem a morte. Ora,
a solução não é legalizar a eutanásia, pois essa é a escolha mais fácil, que
significaria sempre a rendição da sociedade e das suas instituições diante das
dificuldades, em vez de procurar congregar esforços, com o empenho de todos, para
as superar. Mais ainda, é bom lembrar que uma decisão desta natureza não é
legítimo tomá-la nas costas da sociedade civil que, de facto, não elegeu os
seus deputados para isso. Mais ainda e citando conceituada figura pública, não
podemos permitir que a morte, mesmo a pedido, possa ser aproveitada como
solução para problemas económicos e de sustentabilidade social. Na realidade,
como demonstra a prática de países onde a eutanásia legalizada, é fácil levar
as pessoas que se encontram em extrema debilidade e sem as condições de vida
digna a que têm direito e lhe são devidas pela sociedade a fazerem o pedido
formal para que lhes antecipem a morte.
Ora Natal não é morte, mas vida
nascente que se afirma, apesar das dificuldades, como foi, no caso do Menino de
Belém, a recusa de um lugar na cidade e a expulsão para as periferias. Assim
eram considerados os campos dos pastores.
Santo Natal, com votos de que a todos
sejam criadas as condições necessárias para viver a vida sempre com esperança.
Guarda, 15.12.2016
+Manuel R. Felício, Bispo da Guarda